Archive for outubro de 2008

Livros, estantes, casa nova – e sem direito a metáfora

A casa nova tem menos prateleiras na parede que a antiga; tem mais armários, though. Estando as estantes novas fora de questão – pelo dinheiro investido em coisas mais necessárias, segundo a lógica feminina, como o passador imitando tecelagem irlandesa para a entrada, os interruptores de prástico vagabundo imitando Casa Cor “pra fazer vista pras visita” e a maçaneta nova, que a velha ninguém mais está usando -, então, estando as estantes adiadas, ficou o problema de como guardar os livros que estou deixando para os herdeiros que hão-de vir.

Em meio à minha personal crisis, não havia tempo para a arrumação definitiva – por assuntos ou cores de lombada, conforme o humor – de modo que a questão foi esta: o que fica nas prateleiras e o que vai para o fundo do armário? Os livros de trabalho na frente, claro. Mas e o resto? Uma regra me pareceu clara: quanto menos óbvio o autor, maior destaque teria. Vocês sabem: livro também é uma forma de humilhar os outros. Mas a regra logo se esfarelou: o óbvio vareia (obras completas de Rubem Fonseca são ou não são de espantar?) e os não-óbvios óbvios são raros lá em casa.

Surgiu a idéia de me livrar da poeirada. Pensei comigo: tenho mais dinheiro que há cinco anos. Com mais dinheiro, vou dispensando outras provas de compensação. Por isso, já dá pra jogar fora uma porção de coisas. José de Alencar, “O pensamento vivo de Einstein”, coleção Primeiros Passos, Manual de Referências Amil 2001, Enciclpédia Einaudi, Tesouros da juventude… Enciclopédia Einaudi?! Tesouros da Juventude?! Não, não há essa compensação. E, talvez, os filhos não ganhem nada do sebo com a edição da Aguilar de Fernando Pessoa, mas façam uma nota preta com um exemplar único do “Livro Técnico do Montador de Aquários”.

Então, como não me restava a hipótese de deixar tudo empilhado à Marcio Guilherme, larguei na mão da sorte. A sorte se chama Dalva. E a Dalva colocou as coisas em seus devidos lugares: o livro de receitas com couscous foi parar ao lado de Espinosa. Ela sabe das coisas.

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Alívio

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Aqui no Rio, o Gabeira perdeu a eleição por pouco, uma fumacinha de nada. Mas vendo a coletiva dele, dá pra perceber um grande alívio. Eleição é coisa animada, tem correria, competição, debate, mas já pensou ser prefeito mesmo?

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O trema

A reforma ortográfica já foi assinada, de maneira que nenhuma argumentação terá grande efeito a partir de agora. Então, essa é mesmo a hora de argumentar, ou de falar sobre os argumentos repetidos com tanta insistência, que devem ser mesmo denegação. Na defesa da mudança, tenho lido duas coisas: a apologia cultural e o benefício econômico, quase sempre nesta ordem.

Supostamente, como portugueses, brasileiros, angolanos etc. etc. não se abraçam o tempo todo, julgou-se que uma regra ortográfica comum pudesse diminuir as distâncias. Não pode. Quem foi a inteligência que concluiu que são “c”s mudos, hífens ou tremas que atrapalham o entendimento de uns para os outros? Desde sempre, os livros do Saramago têm a grafia que ele julga melhor e nem por isso deixam de vender como água por aqui, com ou sem adaptação do cinema e a despeito da qualidade. E antes que alguém fale dos períodos longos e da pontuação pessoal, não custa lembrar que isso tem a mesma relação com a ortografia que aquela parte mal ensolarada do corpo tem com as calças. Então, se há mesmo um problema de distanciamento cultural pela língua – não há! -, o negócio seria fazer uma reforma ortofônica, se tal coisa pudesse ser feita (não pode!). Quer aproximação cultural? Mande umas meninas daqui pra lá, ou vice-versa, que depois conversamos.

E então, depois do lero-lero sobre cultura, o sujeito vai e diz: “E ainda existem as vantagens econômicas”, falando meio baixinho, para não pensarem que acha bom alguém ganhar dinheiro com alguma coisa. Duvido muito que alguém tenha feito a conta para supor o saldo entre o que se investe para fazer as numerosas adaptações ao longo dos próximos anos, o que se ganhará com a venda de publicações no mundo lusofônico e o que se deixará de perder com dispersão. Mas suponhamos que, a longo prazo, haja um valor econômico. Nesse caso, gritem: “Galera, a reforma ortográfica dá dinheiro!!!” Só não fiquem falando que é um benefício acessório, que é um “plus a mais”, como quem pede licença. Ou tem vantagem forte, ou não vale a pena gastar tempo com isso.

Na verdade, o que as pessoas não dizem – e deveriam – é que essa reforma vem dar uma ajeitada no que o tempo desajeitou. Não mexe com identidade cultural, com regras sintáticas, com muito dinheiro – mas dá uma limpada na confusão. Só isso. É chato, porque todo mundo (todo mundo uma ova, eu não!) tem que se adaptar, aprender umas regras novas e coisa e tal. Mas é quase só isso, e uma nostalgia enorme. Aqui em casa, por exemplo, manteremos o trema, talvez até no nome das crianças.

Pensando bem, essa reforma ortográfica dá uma bela desculpa pra gente se sentir mais velho com a evidência indelével de uma palavra que não se escreve mais daquele jeito. Ou vocês não têm inveja daquelas dedicatórias do avô com circunflexos e duplos “nn”?

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