Archive for fevereiro de 2009
Portabilidade mulhérica
Posted by Bruno Rabin in Crônica on 17 de fevereiro de 2009

A portabilidade numérica funciona assim: você vai à operadora para a qual pretende migrar, conversa, discute os planos, pergunta sobre tudo aquilo que infernizou sua vida na operadora atual, faz um charme e fecha o negócio. Nem precisa falar com a anterior. Elas se resolvem e, em três dias, você está por aí, com o mesmo número, de operadora nova. Nesse período – eles avisam -, existe uma “janela de migração”, na qual você fica já sem a antiga e ainda sem a nova.
Tudo muito civilizado.
Então, a proposta é que a humanidade crie uma espécie de portabilidade amorosa, que funcionaria da mesma maneira: cansado daquela broaca, você conhece uma morena que nem te conto. Conversa bastante, faz algumas visitas à casa dela, fala abertamente sobre a nova relação, exige o tempo pro futebol e nenhuma reclamação sobre cuecas sujas. Ela aceita tudo sorrindo e ainda confessa algumas preferências sexuais. Aí, decidido pela nova companheira, você nem precisa fazer nada. Uma liga para a outra, elas que se entendam. E o melhor: você ainda ganha uma “janela de migração”, para aproveitar o Carnaval como quiser.
Analogia infundada para pecadores
Posted by Bruno Rabin in Crônica on 16 de fevereiro de 2009
O funcionário da empresa acha que o patrão tem muito dinheiro e lhe paga menos do merece; por isso, para compensar a exploração, em vez de mostrar mais serviço e discutir um aumento, faz um interurbano pessoal na firma, imprime o trabalho escolar da filha, leva alguns saquinhos de adoçante para casa.
Cometer um pecado, no fundo, é a mesma coisa. O sujeito acha que Deus já tem coisas de mais e está pagando mal pela tarefa – viver, no caso. Aí, em vez de falar com o patrão ou fazer melhor o que ele manda, prefere pegar um pedaço duplo da torta de chocolate e dizer que não poderá ir à festa de quinze anos da afilhada do vizinho, porque precisa levar a avó à final estadual do jiu-jitsu para a terceira idade.
Donde se infere que Deus talvez tenha péssimos gerentes de R.H.
São João Batista; epifania
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 9 de fevereiro de 2009
Olhou para o caixão, tentando ver se achava uma opinião sobre o corpo descoberto. Não teve aversão àquela “coisa de católicos”, como dizia a mãe. Nem atração. Era difícil se concentrar com o barulho do tráfico próximo ao túnel. E estava quente. A irmã do morto chorava e suava igualmente, o corpo gordo mal cabendo na camisa verde. A morte ali ao lado era também um sofrimento para quem estava acima do peso, pensou. Como ter dignidade num caixão gigante, obrigando os amigos ao esforço descomunal?
Enquanto chorava, a irmã mexia as bochechas rosadas de um jeito estranho, fazendo-o pensar também que não era só o peso, mas o formato do rosto que não combinava com a morte exposta: não há seriedade diante de uma bochecha rosada. E ela estava de verde. Será que tinha escolhido a cor? Ele mesmo havia demorado horas resistindo ao preto. A janela do velório era enorme, e o sol ia até o meio da sala. Meia dúzia de pessoas usava bermuda; quase todos de camiseta clara. Pensou que deveria se lembrar de morrer no inverno.
Uma velhinha se aproximou da irmã do morto, abraçou-a e manteve suas mãos entrelaçadas nas dela, balançando os braços da irmã como quem busca animar a pessoa que não quer ser animada. A irmã se viu obrigada a ficar agradecendo repetidas vezes, desviando o olhar para o guaraná que seu irmão mais novo bebia. Passou a língua entre os lábios, engoliu em seco, os braços sem vontade animados pela velhinha. Nem sofria mais, suando, a garganta seca, e a velhinha falando com ela sem parar. Enquanto bebia o guaraná, o irmão olhava fixo para a cruz sobre o caixão. Era um modo de não ser incomodado. Quando a bebida acabou, continuou sorvendo o canudo, sendo repreendido pela velhinha, que desviou o olhar em sua direção.
Tentou se concentrar no morto. Ele também suava. Aproveitou que um casal se levantou do banco e procurou um lugar sob o ventilador. O primeiro alívio logo se transformou num incômodo maior. A forração de plástico preto imitando couro grudava em sua roupa, produzindo sons estranhos a cada movimento. Levantou-se. Andou vagarosamente até a janela, onde também não suportou ficar. Desta vez mais decidido, resolveu sair da sala, sacando o telefone celular no momento em que atravessava a porta. Fingiu checar a mensagem nenhuma e foi até o lado de fora do prédio, onde imaginava encontrar um restinho inexistente de brisa. Àquela hora, o São João Batista não tinha nem ar.
Ao voltar para a sala, cumprimentou a ex-mulher do morto, sem saber se ela o reconhecia. Murmurou uma frase propositalmente sem sentido. Era só a intenção que importava. Queria concentrar-se naquela morte. Não era tão amigo do morto, nem o via fazia bastante tempo. Estava ali por outras pessoas, mas uma morte exige respiração profunda. Esforçou-se mais uma vez, e por isso não percebeu a movimentação em torno do caixão. Dois homens vestidos com calças velhas, blusas desabotoadas, um deles com um boné do MST, pegavam as coroas de flores sem muito cuidado, empurrando as pessoas ao levá-las para fora. Um grupo de amigos do morto começou a se organizar. O caixão foi fechado, as pessoas foram aumentando o tom de voz. Na confusão, ele foi sendo empurrado para fora, mal conseguindo se apertar num canto, enquanto aqueles homens disputavam a amizade do morto aos olhos dos vivos, cada um querendo ser o principal carregador do caixão.
No caminho para a sepultura, ninguém falava muita coisa, menos pela sobriedade do acontecimento, do que pela necessidade de poupar forças. Ninguém sabia até onde teria que andar. Pensou em voltar dali mesmo (sempre pensava nisso), mas achou que perderia a última oportunidade de dar alguma dignidade ao ritual. Enquanto andava, lia as inscrições e as lápides. Saudade eterna de Ana Amélia Dias Leite. Mausoléu da Família Sousa e Silva. Ao lado d’Ele, em descanso eterno. Ao virar na via principal, notou uns fios se movendo. Eram pipas, duas delas, uma verde e vermelha, a outra laranja. Seguiu as linhas pata ver de onde vinham e logo se deparou com dois garotos de calção, sobre túmulos próximos ao lugar para onde ia o enterro. Um ria, o outro falava. Parecia irritado. À medida que se aproximavam, pôde ouvir as palavras com mais atenção. Um palavrão, um xingamento, a pipa que não subia naquela tarde sem vento. O menino que ria resolveu pular de um túmulo para outro, puxando a pipa com força, até que ela subisse um pouco. Gritou o nome do amigo, ou apelido. A essa altura, todas as pessoas já olhavam na direção dos meninos, a maioria querendo reprovar o comportamento, mas logo se desanimando diante do caminho a ser percorrido.
Nesse momento, a pele queimando pelo sol sem vento, os meninos soltando pipa e gritando, as pessoas andando a contragosto em direção à vala aberta, os homens com camisas desbotoadas levando as flores sem jeito, a irmã bochechuda limpando a testa no lenço que tinha ido ao nariz – nesse momento, teve uma intuição. Deus não existia. Pelo menos no Rio de Janeiro, Deus não existia. Continuou andando e pensando sobre a ideia nova. Em pouco tempo, a intuição se transformou em certeza e lhe parecia uma verdade tão suficiente em si mesma, que ele teve um momento de alegria.
Tudo fazia sentido: as pipas, o suor, as camisas desabotoadas e as bochechas suadas. Olhou outra vez para as lápides. Natasha, amor infinito. Paz e alegria no Reino de Deus. Maria Vitória de Albuquerque, 12/01/13-17/05/07. Virou o rosto para a esquerda. O menino que reclamava agora ria do outro, uma risada de escárnio, sem pena nenhuma da pipa presa a uma cruz. Naquele enterro, tinha encontrado uma resposta. Nunca mais o desconforto de viver em meio a pessoas que falam de espiritualidade sem religião, de sentimento divino sem rituais. Era o contrário. Nenhuma alma, nenhum espírito, nenhuma divindade. Só o ritual valia a pena. E, no São João Batista, nem isso.
Opinião, argumento – e essas coisas que você fica achando por aí
Posted by Bruno Rabin in Uncategorized on 2 de fevereiro de 2009
Três tipos:
1) Pessoas que têm opinião;2) Pessoas que têm opinião fundamentada (i.e., argumento);3) Pessoas que gostam de opiniões.
Que são:
1) Raras (Ex.”falsa gaga”);2) Chatíssimas (Ex.: achar que dinossauro também é gente);3) A gente (Ex. Hahaha).
