Archive for março de 2009

À maneira de César, um post-twitter sobre posts pendentes que jamais escreverei, meio por preguiça, meio por falta de empolgação (coisas bem diferentes), com um título maior que o dito-cujo

1. Ia fazer análise, mas o gasto mensal com as consultas ficaria mais caro que os sabonetes para a compulsão, sem falar na limpeza, né?

2. A próxima vez que ouvires alguém falando “pré-conceito”, compra-te um revólver.

3. Se quiserdes ser eterno, escrevais em segunda pessoa.

4. Blog é quem nem biscoito: vai um, vêm dezoito.

5. Quando alguém sugerir que você leia o novo romance daquele compositor bebum, responda logo: “Ah, eu já li, mas foi há muito tempo, nem lembro.”

6. Se eu preferisse resenhas a uns trocados, ia escolher um destes protagonistas para o meu romance: dançarino de dança de salão, comentarista de blog, estudante de design ou baixista de banda alternativa. A história ia ser chata, mas que charme!

7. Aliás, o rock, a dança de salão e o design fizeram mais pela ilusão da igualdade democrática do que dois séculos de política.

8. O vegetarianismo teria muito a ganhar se não precisasse tanto se afirmar; ou você acha mesmo que existe tal coisa como “estrogonofe de tofu”?

9. O politicamente incorreto é o novo politicamente correto.

10. Decoração é a maneira menos econômica de ter personalidade.

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Quem mandou baixar legenda

- Não me padronize, Paul!

(Tradução de Neozin para “Don’t patronize me, Paul!”, fala de Laura em In treatment)

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Na fila K

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Sobre os shows do Radiohead no Brasil

Quando se é meio velho desde cedo, shows são sempre a certeza de um equilíbrio improvável entre a sobriedade que, evitando o suor alheio, nada aproveita e a bebida suficiente para esquecer aquela gente ao lado, mas que impõe a ida ao banheiro lotado a cada cinco minutos. Em casa não tem nada disso.

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Avisado por um amigo, vejo o Fantástico à espera da entrevista com o guitarrista Ed O’Brien. O de sempre: então, você conhece o Brasil? E gosta de música brasileira? Está preparado para uma emoção diferente? “Hello, Brazil. This song is for all of you!” E mandam Creep: “I don’t belong here.”

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Nesses shows no Brasil, antes do Radiohead, quem toca é o grupo Los Hermanos, que chegou a desistir do que fazia por causa dos fãs. Aqui no Rio é famosa a crítica ao fato de que, nos shows do grupo, era tanta gente cantando a letra ao mesmo tempo, que o cantor ficava quieto a maior parte do tempo. Terminaram a banda e ganharam minha admiração. (E vocês se lembram deste texto?)

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Não existe salvação para qualquer tipo de idolatria. Mas pelo menos a tietagem tem uma vantagem sobre a iconoclastia: não precisa se explicar. O ridículo se basta.

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Ser fã é uma estranheza. Ao mesmo tempo em que quer que todo mundo sinta a mesma intensidade que ele sente, no fundo acha que nenhuma outra pessoa consegue perceber a mesma coisa.

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A ideia distante de um show do Radiohead já tinha me levado a pensar numa viagem só pra isso. Assim são as ideias, afinal; nem precisam virar realidade. Mas o anúncio da vinda do grupo e as vendas de ingresso desde novembro me levaram à incômoda circunstância de ter que ir ao show na próxima sexta-feira, donde se conclui que o resfriado vai se transformar em gripe forte – se tudo der certo.

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A metáfora que não fiz

Era para fazer uma metáfora sobre sutileza e generalização. Falar do ridículo de proibir os sempres e nuncas e do ridículo dos pode-ser-que-talvez-em-certo-sentido-se-consiga-perceber-certa-espécie-de-sei-lá-o-quê. Porque, nestes dias de palavras que ferem, fico achando que está todo mundo certo. Quem acha que spaghetti, spaghettoni, spaghettini, rigatoni, penne, mezze penne, penne rigate, bavette, bavettine, capellini, farfalle, tagliatelle, fusilli, gnocchi, orecchiette, cannelloni, bucatini, capellini, ziti e lasagnette são todos diferentes. E quem acha que é tudo macarrão. That’s my offer, instead.

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Se um turista numa manhã de verão

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Lendo essas notícias sobre problemas em cruzeiros marítimos (intoxicação alimentar, pane elétrica, incêndio, falta de cuidados médicos, abuso de drogas, morte e, o que é pior, voltagem de 220 para secadores de cabelo de 110), fico achando bom o argumento de que “a natureza se vinga”.

Deus faz um mundão para as pessoas passearem, o homem capricha aqui e ali com outros espetáculos, e essas pessoas escolhem entrar num navio cheio, beber drinks açucarados dentro de abacaxis com guarda-chuvinha colorido e usar aquele vestido do casamento da afilhada para jantar comida morna de buffet com náusea do sobe-e-desce. Merecem castigo, claro.

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Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel

Conhecer muitas pessoas inteligentes é evidência das próprias lacunas. A sagacidade do outro vem sempre duma lerdeza própria – mas muito vaidosa. Percebeu antes de mim? Então, é brilhante.

De modo que a sensação da mediocridade é exatamente assim: um quase. Eu quase fiz aquele trocadilho; por pouco não falei a mesma coisa. Como quando se ouve pela primeira vez um Bill Evans e cada toque parece ser justamente o que deveria vir e o que você faria se tocasse piano. Ou quando um amigo imita perfeitamente um trejeito de outra pessoa, que você faz direitinho dentro da sua imaginação.

A mediocridade é isto: a impressão sempre presente de que, no fundo, com um pouco mais de esforço, você faria igualzinho – cada lance do Romário, cada episódio dos Sopranos. Não fez, mas poderia ter feito – e por isso reconhece o esforço alheio como brilho. E olha para o lado, à procura de um cumplicidade, ficando muito feliz por não encontrá-la.

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