Psicológo, sociológo, ministro, aposentado que dá entrevista na fila do banco ao RJTV: todo mundo que opina sobre essa história de acabar com o vestibular – os que concorda e os que discorda – todo mundo acha que, de qualquer maneira, é preciso acabar com a decoreba.
Tão falano besteira.
Primeiro, é romântico pensar que você sabe algumas coisas de coração (é etimologia, meu amigo, pergunte à tia do colégio).
Segundo, quase sempre a decoreba é criticada porque se supõe que o indivíduo possa desenvolver habilidades dedutivas e competências interpretativas para construir o conhecimento de forma autônoma, e se eu continuar essa frase mais um pouco, ganho um título em pedagogia, então é mió pará.
Quer dizer: o Pitágoras vai lá, corta uns retângulos ao meio, experimenta as proporções, tem um insight, publica um twitter com o famölzo teorema e a mulher que tirou zero em Matemática, que sequer sabe o que é um cateto, escreve um artigo no jornal protestando contra o absurdo das fórmulas impostas à cabeça dos pobres estudantes. Então, é isso: em vez de entender o caminho longo uma única vez e pegar o atalho depois disso, a sugestão é que, a cada vez, o sujeito faça o percurso de novo? Como é que essa gente assiste à televisão? Ou usa o lápis? Será que fica pensando sobre como o grafite entra naquela pedaço de madeira e risca o papel?
O pior dessa aposta na “capacidade de dedução” é que, além de ser bastantemente injusta com as pessoas que não conseguem sequer percorrer de novo o caminho aberto pelo inventor da fórmula, ainda nutre certo desprezo pelos gênios – o que não deixa de ser um desestímulo para os ditos cujos. Se estivesse vivo, o Newton mesmo ia colocar as leis num post it na geladeira e olhe lá!
Agora, o que eu queria ver mesmo é esse pessoal que ataca a decoreba sendo operado por um médico que não decorou anatomia, fisiologia ou farmacologia. Na hora do aperto, sangue pra todo lado, tá lá o cara pensando: “Humm, esse tubinho aqui está vindo de onde? Humm, deixa eu ver, olha ali. Ah, vem do coração. Se vem do coração, então deve ser artéria. E se é artéria, vem com pressão total, porque o coração acabou de bombear. Nesse caso, deixa ver, é melhor comprimir logo, senão vai tudo embora… Ih, não deu…”
É óbvio que, quando se fala de decorar alguma coisa, está se falando sobre ter repetido tantas vezes uma operação mental, que já se pode deixar de lado os intermediários. Do contrário, o atalho leva do nada a lugar algum. Mas o esforço da memorização, para além do prazer de poder dispensar o Google nas conversas com amigos, ainda tem o sentido poético de uma recordação dos tempos de escola. Multiplicação do nove, ciclo de Krebs, funções inorgânicas – é todo um lirismo que as gerações da educação construtivista não vão conhecer.
Ou vocês acham que todo mundo acha graça da piada abaixo?

#1 by Márcio Guilherme on 4 de maio de 2009 - 23:42
Reflitam, ok ?!1!! Abs, Márcio.
#2 by mauro on 5 de maio de 2009 - 8:18
Not to mention as preposições.
#3 by Lia Caldas on 14 de maio de 2009 - 2:29
Ô Bruno! Num tem email de contato nesse site não?! Faz um tempo que não visitava o seu blog. Seu texto continua maravilhoso. E como anda a vida de casado? Vê se aparece! Hoje encontrei seu pai na padaria aqui perto de casa. Eu voltei para o Leblon, sabia!?
Bjs, Lia Caldas
#4 by Anana on 14 de maio de 2009 - 19:03
A fórmula perfeita seria entender e fazer uso do decoreba básico. Se não fossem as musiquinhas escrotas do cursinho pra eu me lembrar das fórmulas de física, matemática e química, não estaria hoje formada.
adorei! Beijos