Em que explico o mal da falta de editores e críticos com mão pesada (“Então vem fazer melhor!”)


Sempre que eu leio um romance importante brasileiro (e aí aquela preguiça danada de fazer uma ironiazinha, umas aspinhas cínicas ou qualquer coisa assim, imagina aí se você acha que isso faz alguma diferença), fico com a impressão de que o autor podia ter feito uma coisa um pouquinho melhor. Não tenho a mesma impressão com romances dos autores do mainstream literário em inglês, por exemplo (Ian McEwan, Philip Roth, até Paul Auster, em muitos casos).

Talvez o problema seja minha má vontade. Não é. Eu gosto de qualquer história bem contada e gosto quase igualmente de uma pós-modernidadezinha ajustada. Talvez seja a desproporção: comparar a seleção mundial com a brasileira numa praia que não é nossa ajudaria a explicar a diferença. Mas também não. Há uma tradição mínima de romance aqui e estamos falando de gente que, supostamente, tá com tudo por aqui (Milton Hatoun, Bernardo Carvalho, Antonio Torres). Essa gente, meia dúzia de livros publicados, prêmios acumulados, joga a Copa do Mundo da literatura. O craque da Coreia, perdendo tudo na primeira fase, sabe tocar a bola, ou quase.

O problema não é dos autores. É dos “técnicos” e “preparadores físicos” – ou da ausência deles. Explico: escrever pressupõe talento, claro, mas há um desenvolvimento técnico, estilístico, artístico que exige o olhar crítico e, sobretudo, a intervenção de alguém que, não tendo habilidade para a prosa ou para o verso, pode tê-la de sobra para a leitura. São talentos que não se confundem e que se complementam, como o demonstram as melhores tradições literárias. A figura de um crítico com peso na produção de ficção ou a de um editor com caneta vermelha impaciente não fazem parte do cenário literário brasileiro. Ao contrário, sobra um provincianismo de encontros de escritores, premiações e resenhas em que a cordialidade retórica e a mitificação do autor ajudam a considerar toda a sua produção genialidade desde já acabada. Uma Flip, por exemplo, que ajudaria a aproximar o público do escritor, desmi(s)tificando-o, faz quase o contrário: aproxima os leitores/críticos/editores do autor, elevando-os a essa espécie de olimpo com casinhas coloridas e bovó de camarão com cerveja. (No Brasil, todo crítico ou editor quer escrever um romance também. Não pode dar certo.)

O sujeito escreve um conto. O conto fica bom, mas poderia ficar melhor. Troca isso aqui de lugar, corta auquele parágrafo ali, coloca esse personagem transando com aquela outra – há cirurgias plásticas necessárias e muito simples de serem feitas, às vezes. Mas a intimidade tímida diante do gênio, a formação meia boca nas escolas de jornalismo e edição ou, sei lá, o gosto pela literatura mediana, alguma dessas coisas deve explicar o laissez-faire ficcional brasiliano. Ou então não é nada disso, e eu é que não sei de nada, ok?

  1. #1 by bruno on 8 de janeiro de 2010 - 20:05

    já vi esse cenário acusado muitas vezes, mas muito bem posto.

  2. #2 by Alexandre SS on 9 de janeiro de 2010 - 13:46

    Acho que em parte é verdade, em parte é falta de talento dos escritores mesmo. E me pergunto se era assim na Rússia do século XIX. Digo, se editores ficavam mandando mudar tudo em Anna Karenina.

  3. #3 by Pedro on 10 de janeiro de 2010 - 10:06

    Já é difícil saber o que ler, o que é essencial. Ainda mais quanto à estrutura etc, conhecimento, técnica, e por aí vai. Eu meio que vou aprendendo no tapa. E comparando, lendo, reescrevendo sempre, indefinidamente. É quase um jogo experimental caledoscópico. O diabo é que nunca fica pronto. E você não tem idéia exata da merda que está escrevendo. E, no entanto, escreve.

(não será publicado)