Archive for category Crítica
Manoel de Barros’ poem generator
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 19 de abril de 2010
Eu vim aqui para desacontecer as coisas.
O mundo se mariposa em miudezas de anteontem,
Desescolhi a vida por princípio,
mas dois ou três formigamentos de menino fizeram isto:
pular o som do assovio pequeno de passarinho encolhido.
Olhar de sol tardio não se cheira nem de longe.
No vazio da deslembrança é que a gente encontra a vivência.
Com pé na grama verde qualquer bicho faz a gente reviver
e ninguém asne o luar para sabedoria.
Uma reza de barulhos mestiços leva tempo para desfazer.
Pode até ser que voeje.
Deixando cair, até pedra finge de cachorro.
Nada encolhe que não tenha sido arco.
No muro adentro é que se vê a paisagem.
Aqueci de dentro para voar em árvore.
O Alexandre fica vendo essas porcarias, aí acaba escrevendo besteira
Posted by Bruno Rabin in Crítica, Mídia on 9 de fevereiro de 2010
Vocês já leram isso aqui? Então, leiam. Conferiram a data da notícia? Checaram o ano? Pois é, o Marco Aurélio “top top” Garcia está preocupado com a programação da TV por assinatura, pelo efeito de aculturação do lixo norte-americano sobre as nossas cabeças. Dá pra fazer meia dúzia de piadas e tal, mas acontece que também é divertido levar as coisas a sério. E, nesse caso, tenho cada vez mais a impressão de que não dá pra ficar só fazendo piada. O arrependimento virá tarde demais. Então, nenhuma sutileza para ver se ele entende, ok?
O que não faz sentido no argumento do professor? – let’s name it.
Bem, preocupado eu estivesse com algum lixo de programação televisiva, faria mais sentido olhar os canais abertos. Os assinantes de TV não passam de 7 milhões, ou seja, menos de 4% da população. Vá lá, admita-se que esse número seja multiplicado por quatro, considerando uma média domiciliar razoável; ainda assim, não passa de 15%. É pouca gente para tanta preocupação – a não ser que o assessor esteja pensando nos “net cats” por aí, mas seria engraçado ver a preocupação com os efeitos de uma ilegalidade que o Estado não coibe direito.
Não é só isso. A turma que assina TV no Brasil não está nas classes C, D ou E. Pergunte aos anunciantes. Niely Gold e Assolan estão na Globo, não na Sony – e os preços são muito menos distantes do que se poderia imaginar, efeito da estratificação. Por isso, carro de luxo, hoje, só na TV paga. São, muito provavelmente, as pessoas com mais, como dizer?, acesso à educação.
O “lixo americano” a que se refere Marco Aurélio Garcia divide espaço com muitas produções nacionais e, digamos, “educativas” (documentários, entrevistas, reportagens etc.). Então o discurso dele se refere, suponhamos, a filmes e seriados. Bem, quanto aos filmes, os piores vão sempre para a TV aberta; os melhores costumam ficar restritos aos assinantes. No que diz respeito aos seriados, é lá que se encontram alguns dos melhores roteiristas, diretores e atores em ação nos Estados Unidos. Para forçar a comparação infantil, há muito mais inteligência, na média, nos seriados americanos do que nas novelas brasileiras: diálogos rápidos, roteiros espertos e alguma coisa acontecendo (!). Existem exceções, claro, mas o número de opções e a audiência dos melhores confirmam essa percepção.
Mas não é só isso, não. Mesmo supondo que um filme ou seriado tenha a “força de uma transmissão muito negativa de valores”, com quem é que o Marcão tá falando? O idiota nunca vai ser mais ou menos idiota porque está na frente de uma estupidez. E o Alexandre não vai deixar de ser brilhante porque assistia a Buffy (Ele lê Gossip Girl). Suspeito até que ocorra o contrário, mas isso é outro assunto.
Quer dizer, não é não; é o mesmo assunto. Explicando direitinho: a televisão não tem a ver com nada. Nem com a inteligência, nem com a burrice. Nada. O sujeito pode passar a adolescência vendo Batman e Sílvio Santos e se tornar um brilhante redator publicitário adevogado. Ou então, não ter tempo para isso, tornar-se político e manter a idiotia de um discurso vintage, por exemplo execrando a TV… Pode ser que eu esteja enganado, mas esses 18 anos lidando com adolescentes me permitem dizer que a única diferença está lá na casa do menino ou da menina: umas estantes com livros e alguém lendo, indo ao cinema ou ao teatro com alguma regularidade. Margem de erro de 10%, ok?
E há algo de mais espantoso ainda nesse discurso sobre as “influências malévolas dos meios de comunicação”, porque o mesmo governo de que participa tão ativamente Marco Aurélio Garcia fala sobre a democratização do acesso à banda larga. É engraçado que as mesmas pessoas que denunciam os efeitos negativos da TV falem justamente o oposto sobre a Internet: “o Museu do Louvre, a Biblioteca Nacional e todas as notícias do mundo ao alcance de um clique” – enquanto o garotão está lá deixando um scrap no orkut do vizinho (“Aí leke a parada furou vlw”).
Isso tudo, para não falar no mais importante: cada um que escolha o que quer ver e o que quer ser, não é não? Mas essa história de liberdade é demais pra cabeça dele. Deixa pra lá.
Los Hermanos incomodam muita gente; dois Los Hermanos incomodam muito mais
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 13 de agosto de 2009
Então, agora que Lennon e McCartney se separaram – e a gente até gostava dos Beatles, apesar dos fãs -, ficou a impressão de que ia cada um pro seu canto fazer suas coisas. Mas aí vieram umas mina, e os caras acabaram voltando ao começo de tudo. Quer dizer: não só não acabaram com o Loser Manos, como pioraram a coisa: transformaram em dois, juntaram umas meninas com voz de criaça (Pelé cantando feellings: lembra?), foram pro ingrês, mas não se livraram daquele pessoal que não percebe a diferença entre show e sarau. (Pensei até em colocar os YouTubes aqui no blog, mas fiquei envergonhado, de modo que você vai ter que sujar seus dedos clicando aqui no Little Joy e aqui no Marcelo Camelo c’a Mallu.) Esses sim, #brilhammuito.
Tropa de Elite, osso duro de roer
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 9 de outubro de 2007
Vi Tropa de Elite, afinal. Pensei em não ver e dizer que não fazia mesmo questão de ver por causa das pessoas que insistem em fazer elogios do tipo “O filme é sensacional mesmo.” (Vocês precisam ver quem são essas pessoas…)
Mas assisti ao filme. E o filme não é sensacional. Tem narrador em off dando “sentido” às imagens; tem Wagner Moura fazendo piada com a boca de lado (sempre engraçado, até quase torturando); tem direção de fotografia à Nigella. Uma inovação (bocejo). O “soco no estômago” ficou por conta do almoço indigesto mesmo.
Mas é preciso, acho, falar sobre o filme, menos pela pirataria (que não chega a ser falta de caráter, o que seria sofisticado demais em muitos casos) do que pela catarse pró-BOPE, com direito a agressão a consumidores.
A figura do capitão Nascimento (até nome simbólico o filme tem, meu povo) – incorruptível e torturador – suscita três reações: o cinismo, a projeção e o horror. Fico com uma quarta: o “pé atrás” diante de quem não percebe a contradição em termos que é torturar e ser incorruptível, o “pé atrás” quanto à indiferença de quem sai do filme fazendo piada e o “pé muito atrás” com a indignação horrorizada.
A desconfiança se explica: Tropa de Elite é só um filme bem feito (não é pouco, claro, mas também não é muito); o BOPE é um sintoma, não é causa de nada (atingir sintomas não resolve o problema, claro, mas isso não significa que não se deva diminui-los); e a classe média é média mesmo.
E há também a quinta reação, do Jabor, que é a de dizer que Tropa de Elite nem chega a ser um filme.
Esse aquecimento global é coisa da CIA
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 9 de agosto de 2007
Você que mora no Rio me diga: tem visto isso aqui em toda parte, ou sou apenas eu?
As beautiful as boring
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 5 de agosto de 2005
Beleza excessiva, tédio idem. Nem chega a ser coisa rara. As mulheres e as canções mais lindas costumam prová-lo: quanto mais próximas da perfeição, mais acabadas; quanto mais acabadas, maiores os bocejos.
Sin City é isso. E quem quiser falar da simbologia crítica que fale sozinho. Pois se justamente a gratuidade faz sentido, como fazer da intenção um mérito? Cá pra nós: quer coisa pior que história em quadrinhos engajada?
Edukators é Os sonhadores piorado
Posted by Bruno Rabin in Crítica on 31 de janeiro de 2005
Edukators (Die fetten Jahre sind vorbei) e Os sonhadores (The dreamers) têm algo em comum: um triângulo amoroso — e isso, dito assim, há-de ser lido com ressalva, já o sabe quem assistiu aos filmes — à Jules e Jim. Mas isso que aproxima os filmes também é o que mais os afasta. Explica-se: enquanto no filme de Bertolucci o triângulo está no cerne do que ele tem a dizer, no filme alemão (mais austríaco que alemão, a bem da verdade), o triângulo é o detalhe do enredo — detalhe muito significativo, e que serve a um paralelo curioso.
Os sonhadores dá uma cacetada com luva de pelica na imagem da juventude parisiense nos idos de 68. Mas a porrada não atinge ninguém, pois Bertolucci não conseguiria ser tão iconoclasta. Por isso, ao mesmo tempo em que o filme desconstrói a politização farsesca de dois irmãos franceses e o novo amigo americano, ele acaba repondo outra idealização — saborosíssima nostalgia do não-vivido — de uma certa procura por liberdade, beleza, amor, coisa e tal. Em outras palavras, Os sonhadores dormem até a pedra que lhes quebra a janela, quando acordam para seu engajamento de circunstância. Tudo ali é beleza: a menina, os meninos, a casa e até a rua, ao som de Piaf em câmera lenta. Tudo ali era beleza, beleza pura. A questão do filme é estética, jamais política; a questão daquela juventude idem. Por isso, o “soco no estômago” — como costuma dizer o populacho — também ganha a velocidade da câmera lenta. Fica bonito e não atinge ninguém, nem poderia; faz tempo que tudo isso se foi.
Edukators faz o inverso e lembra o que o Diogo Mainardi disse há pouco a respeito das críticas que recebe. Admitindo ser mesmo um Paulo Francis piorado, ele reconheceu nisso um sinal dos tempos, já que tudo está piorando. Edukators é Os sonhadores piorado. Há ali jovens num contexto político conturbado e que se vêem diante da procura por uma utopia. Na Europa quase-capitalista de hoje, a rapaziada se engaja em movimentos anti-globalização. Panfletos de dia, terrorismo “bem-humorado” (as if) à noite. Ao contrário dos personagens de Bertolucci, os alemães do filme falam as coisas que querem dizer; nenhuma sutileza, nenhuma sugestão: está lá tudo explicadinho. São irracionais esclarecidos, com argumentos para a guerra de informações (“esse seu tênis é fruto da exploração de não-sei-quantas crianças no raio-que-o-parta”), e toda a simbologia de aparato. Nem a trilha sonora de Leornard Cohen melhora o saldo, porque concorre com The Doors, Jimi Hendrix e Janis Joplin.
Mas tudo isso é acessório. Há algo em Edukators que comove sem intenção de fazê-lo, a julgar pela grosseria geral do filme. Numa cena, do meio para o final, o magnata coroa que está com os jovens — ponte entre 68 e hoje — sugere o amor livre do triângulo supostamente formado pela menina e os rapazes. O mal-estar se instala. Não há triângulo consentido, não há liberdade de verdade, é tudo da boca pra fora. Eis o ponto nevrálgico: enquanto num filme a experiência subjetiva romantizada seduz, inspira e excita, no outro, o palavreado político dá sono. Visto à luz de Edukators, Os sonhadores se torna melhor e serve de lição a quem não leu Nelson Rodriges.
A idiotia juvenil — que muitos preferem chamar de ingenuidade, à falta de eufemismo melhor — pode levar a duas experiências: os limites do mundo e os limites do corpo. Para a primeira, faltam a vivência e a serenidade de quem não chegou aos trinta; para a segunda, bastam os sentidos abundantes e os hormônios à disposição. Ainda assim, à revelia de todas as evidências oferecidas pela natureza, prefere-se empunhar a bandeira vermelha e ir ao Fórum. A certeza de quem não viu nada vale muito menos que o silêncio de que não está nem aí. Quando Os sonhadores termina, está começando Edukators; vai-se do sonho ao pesadelo. Numa realidade piorada, até que faz sentido.
