Archive for category Ficção
São João Batista; epifania
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 9 de fevereiro de 2009
Olhou para o caixão, tentando ver se achava uma opinião sobre o corpo descoberto. Não teve aversão àquela “coisa de católicos”, como dizia a mãe. Nem atração. Era difícil se concentrar com o barulho do tráfico próximo ao túnel. E estava quente. A irmã do morto chorava e suava igualmente, o corpo gordo mal cabendo na camisa verde. A morte ali ao lado era também um sofrimento para quem estava acima do peso, pensou. Como ter dignidade num caixão gigante, obrigando os amigos ao esforço descomunal?
Enquanto chorava, a irmã mexia as bochechas rosadas de um jeito estranho, fazendo-o pensar também que não era só o peso, mas o formato do rosto que não combinava com a morte exposta: não há seriedade diante de uma bochecha rosada. E ela estava de verde. Será que tinha escolhido a cor? Ele mesmo havia demorado horas resistindo ao preto. A janela do velório era enorme, e o sol ia até o meio da sala. Meia dúzia de pessoas usava bermuda; quase todos de camiseta clara. Pensou que deveria se lembrar de morrer no inverno.
Uma velhinha se aproximou da irmã do morto, abraçou-a e manteve suas mãos entrelaçadas nas dela, balançando os braços da irmã como quem busca animar a pessoa que não quer ser animada. A irmã se viu obrigada a ficar agradecendo repetidas vezes, desviando o olhar para o guaraná que seu irmão mais novo bebia. Passou a língua entre os lábios, engoliu em seco, os braços sem vontade animados pela velhinha. Nem sofria mais, suando, a garganta seca, e a velhinha falando com ela sem parar. Enquanto bebia o guaraná, o irmão olhava fixo para a cruz sobre o caixão. Era um modo de não ser incomodado. Quando a bebida acabou, continuou sorvendo o canudo, sendo repreendido pela velhinha, que desviou o olhar em sua direção.
Tentou se concentrar no morto. Ele também suava. Aproveitou que um casal se levantou do banco e procurou um lugar sob o ventilador. O primeiro alívio logo se transformou num incômodo maior. A forração de plástico preto imitando couro grudava em sua roupa, produzindo sons estranhos a cada movimento. Levantou-se. Andou vagarosamente até a janela, onde também não suportou ficar. Desta vez mais decidido, resolveu sair da sala, sacando o telefone celular no momento em que atravessava a porta. Fingiu checar a mensagem nenhuma e foi até o lado de fora do prédio, onde imaginava encontrar um restinho inexistente de brisa. Àquela hora, o São João Batista não tinha nem ar.
Ao voltar para a sala, cumprimentou a ex-mulher do morto, sem saber se ela o reconhecia. Murmurou uma frase propositalmente sem sentido. Era só a intenção que importava. Queria concentrar-se naquela morte. Não era tão amigo do morto, nem o via fazia bastante tempo. Estava ali por outras pessoas, mas uma morte exige respiração profunda. Esforçou-se mais uma vez, e por isso não percebeu a movimentação em torno do caixão. Dois homens vestidos com calças velhas, blusas desabotoadas, um deles com um boné do MST, pegavam as coroas de flores sem muito cuidado, empurrando as pessoas ao levá-las para fora. Um grupo de amigos do morto começou a se organizar. O caixão foi fechado, as pessoas foram aumentando o tom de voz. Na confusão, ele foi sendo empurrado para fora, mal conseguindo se apertar num canto, enquanto aqueles homens disputavam a amizade do morto aos olhos dos vivos, cada um querendo ser o principal carregador do caixão.
No caminho para a sepultura, ninguém falava muita coisa, menos pela sobriedade do acontecimento, do que pela necessidade de poupar forças. Ninguém sabia até onde teria que andar. Pensou em voltar dali mesmo (sempre pensava nisso), mas achou que perderia a última oportunidade de dar alguma dignidade ao ritual. Enquanto andava, lia as inscrições e as lápides. Saudade eterna de Ana Amélia Dias Leite. Mausoléu da Família Sousa e Silva. Ao lado d’Ele, em descanso eterno. Ao virar na via principal, notou uns fios se movendo. Eram pipas, duas delas, uma verde e vermelha, a outra laranja. Seguiu as linhas pata ver de onde vinham e logo se deparou com dois garotos de calção, sobre túmulos próximos ao lugar para onde ia o enterro. Um ria, o outro falava. Parecia irritado. À medida que se aproximavam, pôde ouvir as palavras com mais atenção. Um palavrão, um xingamento, a pipa que não subia naquela tarde sem vento. O menino que ria resolveu pular de um túmulo para outro, puxando a pipa com força, até que ela subisse um pouco. Gritou o nome do amigo, ou apelido. A essa altura, todas as pessoas já olhavam na direção dos meninos, a maioria querendo reprovar o comportamento, mas logo se desanimando diante do caminho a ser percorrido.
Nesse momento, a pele queimando pelo sol sem vento, os meninos soltando pipa e gritando, as pessoas andando a contragosto em direção à vala aberta, os homens com camisas desbotoadas levando as flores sem jeito, a irmã bochechuda limpando a testa no lenço que tinha ido ao nariz – nesse momento, teve uma intuição. Deus não existia. Pelo menos no Rio de Janeiro, Deus não existia. Continuou andando e pensando sobre a ideia nova. Em pouco tempo, a intuição se transformou em certeza e lhe parecia uma verdade tão suficiente em si mesma, que ele teve um momento de alegria.
Tudo fazia sentido: as pipas, o suor, as camisas desabotoadas e as bochechas suadas. Olhou outra vez para as lápides. Natasha, amor infinito. Paz e alegria no Reino de Deus. Maria Vitória de Albuquerque, 12/01/13-17/05/07. Virou o rosto para a esquerda. O menino que reclamava agora ria do outro, uma risada de escárnio, sem pena nenhuma da pipa presa a uma cruz. Naquele enterro, tinha encontrado uma resposta. Nunca mais o desconforto de viver em meio a pessoas que falam de espiritualidade sem religião, de sentimento divino sem rituais. Era o contrário. Nenhuma alma, nenhum espírito, nenhuma divindade. Só o ritual valia a pena. E, no São João Batista, nem isso.
Conto Sensorial (V)
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 27 de junho de 2008
O olhar perdido de Juan sugeria apenas uma estupidez inocente, muito ao gosto da imagem de adolescente despenteado com um par de fones metidos nas orelhas, com música alta saindo de lado. O que não se sabia é que ele estava assim havia um dia e meio, desde que, pela centésima vez, havia se esforçado inultimente em tirar os fones do ouvido. Um mau jeito, um mau olhado, um azar tremendo, não se sabe, mas os fones estavam presos ao ouvido sem ter força que dali os tirasse.
O desespero levou Juan a hipóteses estranhas: devia ser castigo divino pela música pirateada; ou então aquele romance nunca lido em que era especialista; talvez não ter escovado sempre os dentes – qualquer coisa assim absurda servia. Mas nem a promessa de refazer tudo às avessas dava certo.
Quem mandou comprar essa bateria importada? Essa, que dura pelo menos 50 horas sem parar, pensou o garoto. E por que o fone sem fio? Seria tão simples cortá-lo. Mas nada disso seria tão desesperador. Quando terminou a música que tocava foi que ele se deu conta do problema em que estava metido: apertara o botão do “repeat” para ouvir de novo aquela canção, e ficou fadado a só escutá-la.
Mas por que Juan chorava tanto? É que ter renegado os pais sessentões se voltava finalmente contra ele. Depois de desgostar do Fidel, de jogar fora a edição comemorativa do Manifesto, de prometer não beber cerveja, de raspar a barba crescida, Juan resolveu manter sua única ligação com a “hippiesse” do pai e da mãe e copiou “Volver a los 17″, na gravação da Mercedes Sosa com a baianada. E essa era a música que Juan ouvia quando os fones se prenderam a seus ouvidos.
Pediu socorro, mas não se fazia entender. Tentou dormir, mas foi em vão. E agora está ali na frente, sentado no banquinho, olhar no infinito, adolescente típico, ouvindo aquela música repetir para sempre, “como el musguito em la piedra, ay si, si, si”. A bateria vai acabar, bem sabemos, mas o Juan acaba antes.
(Este é o último dos contos sensoriais. Os outros estão na extended entry.)
Na mesa
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 20 de junho de 2008
Quando o terceiro vinho chegou e todos se distraíram um pouco, ele olhou uma outra vez para ela, agora mais detidamente. Ela oferecia um sorriso aberto à mesa, enquanto rodava a taça entre os dedos, como se fizesse carícias em alguém que ele não conseguia identificar. Continuou olhando em sua direção, sem perceber que lhe faziam uma pergunta sobre a safra do vinho, à qual respondeu com um “sim”, prontamente diluído na embriaguez do amigo curioso, que já não ouvia nada.
Ela era estúpida (ele sabia) mas ninguém na mesa conseguia perceber que o silêncio enigmático era um disfarce para a falta do que dizer. Ela se aproveitava (ele sabia) de ter olhos escuros; de ter, com esses olhos, um olhar demorado, não pelo que enxergasse profundamente, mas pela imensidão do vazio, pois a falta é ainda mais eloqüente que o excesso; de ter um cabelo muito fino, que mesmo preso se desprendia aos poucos e deixava uns fios escondendo-mostrando a nuca do pescoço comprido; de ter quase um tique no jeito como passava o polegar no canto inferior do lábio, repuxando-o com suavidade e firmeza, como se quisesse abrir a boca só para deixá-la entreaberta, sem dizer nada, mas expirando um ar quente que (ele sabia) aumentaria de intensidade quando ela já estivesse seminua. Mas ele não sabia com quem.
E quando voltou a beber do vinho, fechando os olhos no final do movimento com a taça, ela estava renovando as carícias que ninguém deveria querer ter, porque ela, afinal, teria pouco a dar em troca. A única coisa que tinha, e inconsciente, era essa habilidade em dizer-se para os outros de um modo que (ele sabia) ela não era, essa competência com o corpo que a fazia controlar os gestos à mesa e molhar o pedaço de pão no azeite sem olhar o próprio movimento, mas percorrendo cada ponto do espaço que deveria percorreria se visasse à perfeição. Ela era distraída em ser.
Só ele percebia que ela era uma impureza – e um vazio. Por isso a decisão de detê-la.
Primeiro, teve a idéia de um ataque. Ensaiou uma gargalhada sonora, à qual se seguiria o deboche do controle que (ele sabia) ela não tinha de verdade. Seria uma agressão indireta, uma maneira de ridicularizá-la na frente de todos, exigindo que ela saísse desse lugar de falsa segurança em que depositara sua habilidade em parecer o que (ele sabia) ela não era. Mas foi só uma idéia. Talvez a bebida o ajudasse a colocá-la em prática. Talvez. Ele duvidou; menos do deboche do que da capacidade de rir à vontade que sua intenção exigia, um riso de superioridade como são os risos de pessoas que se sentem melhores que as outras; e ele não se sentia.
Então, pensou em ser igual a ela. Se pudesse esboçar um olhar de mistério e fazer convergir a atenção dos amigos, daria certo. Mas não podia; e precisava detê-la. Ele ainda tentou imitá-la no gesto generoso, levando sua própria taça à boca em um movimento controlado, mas teve a impressão de que a cada ponto do espaço correspondia um riso sarcástico, um comentário, uma reprovação – o barulho da mesa. Desistiu no meio do caminho, com a taça trêmula voltando rápido para o lugar de onde partira e fazendo um som agudo ao bater na borda do prato. Do barulho, fez-se o silêncio, e todos olharam para ele – inclusive ela. Tinha pena, ele sabia.
Com mais um gesto suave, ela partiu outro pão, levou o pedaço menor ao azeite e de lá à boca, onde o mastigou demoradamente, limpando os lábios com o polegar, como se fosse perfeita – e o torturasse, ele sabia.
Rômulo e a mãe judia
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 23 de maio de 2008
Rômulo era de uma família católica típica: muita missa, pouca missão. No Natal, tudo como mandava a liturgia: ceia farta, árvore iluminada, aquela coisa. Mas Rômulo queria ser judeu. Ficou com idéia fixa desde que viu uns garotos de solidéu num filme antigo. Depois, aprendeu a palavra “iídiche” e, mesmo sem saber bem o que significava, gostou da sonoridade. Sua intuição se confirmou quando ganhou de presente um livro de piadas hebraicas e descobriu a mãe judia. Resultado: quis ter uma também.
A cada Natal, quando visitava sua família, tentava alguma coisa. Primeiro, deixou de levar um presente para a Dona Mirtes, apenas o dela. A mãe, a princípio, estranhou o esquecimento; depois, acabou ficando satisfeita com o pensamento de que o filho estava tomando juízo e deixando de gastar dinheiro com besteira. Desolado, Rômulo foi adiante. No Natal seguinte, resolveu criticar sem piedade a camisa que sua mãe lhe dera de presente. Disse que era melhor não ter recebido nada. Dona Mirtes chegou a ficar engasgada, mas se resignou: o filho estava nervoso, essa coisa de colocar dinheiro na Bolsa, ela bem que avisou. E se calou sem esboçar reclamação. Desiludido e insistente, Rômulo deu sua cartada final. Disse à mãe que não iria para o Natal porque ficaria com a família de sua nova namorada. Desta vez — animou-se — conseguiria: rejeição e troca por outra mulher, nada pode ser mais eficaz para despertar o instinto maternal judaico de toda mãe… Para desespero de Rômulo, Dona Mirtes não só entendeu a escolha, como ainda sugeriu viajar para confraternizar com a família da moça – claro, se não fosse atrapalhá-lo.
Desde então, Rômulo nunca mais foi visto. Uns dizem que enlouqueceu com a fixação e se tornou o famoso mendigo erudito da Praça Andrade Neves, que fica lendo a Torá com uma pronúncia muito própria enquanto mexe a cabeça de um lado para o outro, achando-se muito parecido com um rabino. Outros afirmam que, na verdade, ele se casou com uma menina judia abrasileirada, que, contra a vontade de Rômulo, aceitou emprego como gerente de R.H. e abandonou o ritual religioso, escolhendo uma coisa assim mais espiritualizada, meio budista, meio mandala, mas muito verdadeira, sabe?, uma coisa que faz a gente repensar a vida – inclusive as receitas de gefilte fish e beigale, as festas de Pessach e o jeito de cuidar dos filhos e do marido, tudo muito ultrapassado, entende?
Ninguém sabe; pouco importa. O fato é que Dona Mirtes nunca mais teve notícia do Rômulo. Para compensar a perda do filho único, adotou um menino. Dizem que o garoto usa óculos, estuda violino e vai ser médico. E quando pede à mãe para brincar na pracinha, recebe sempre a mesma resposta: mas pra quê, meu filho?
Lúcia e o papel alumínio
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 22 de maio de 2008
Lúcia tinha horror a papel alumínio. Não era apenas uma pequena implicância, ou mesmo um desgosto resignado; não, ela tinha horror a papel alumínio. Não conseguia sequer pensar em tigela ou potinho coberto na geladeira. Desde a primeira vez em que se deu conta dessa aversão, passou a evitar o convívio doméstico alheio. Por isso, não freqüentou a casa de um potencial noivo. Tinha medo de que a sogra lhe oferecesse um pedaço de torta para levar. (Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria.) Por isso, não se casou. Por isso, deixou a própria família. Por isso, nunca mais teve Natal. Ano passado suicidou-se dia 24 à noite. No velório, na casa de Dona Carmem, sua mãe, foram servidos biscoitos com chá. As sobras alguém levou embrulhadas em papel alumínio.
O dia em que quebrei as mãos de Nelson Freire
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 18 de outubro de 2007
Troquei os pés pelas mãos. Literalmente. Tinha prometido ir ao primeiro concerto do Nelson Freire que aparecesse pela cidade. Pois ele apareceu justamente no dia em que a seleção brasileira fazia sua partida contra o Equador. Não tive escolha; e acho até que não faria outra.
***
A platéia já vai preparada para aplaudir. Ninguém nota a entrada lenta em duas ou três notas de um scherzo notabile. Nem eu, para falar a verdade. Aplaudo também.
E aproveito o concerto para pensar em como gostaria de ser vizinho de um pianista, mas um bem fracote, que eu pudesse ameaçar quando desejasse ficar em paz.
Depois do concerto, espero o pianista sair para cumprimentá-lo. Ele me olha assustado, mas não consegue escapar: estendo a mão e ele a aperta querendo ir embora. Não deixo. E fico com a mão dele apertada pela minha, cada vez com mais força. Ele se contorce, puxa a mão com a outra, tenta a todo custo se livrar de mim. Vai ficando vermelho quase roxo e começa a suar. Aumento a força e faço um leve entorce, até sentir um pedaço de osso se deslocar com o barulho desejado. Só então, sua mão quebrada, ele consegue se libertar. Deixou-o ali, incrédulo, enquanto termina o último movimento antes de mais aplausos. Aplaudo-o também.
Vida simples
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 9 de setembro de 2007
Coisa boa na vida são os pequenos prazeres, essas coisas tão simples do dia-a-dia. Ainda agora tomei uma coca-cola fresquinha, fresquinha, feita na hora. Uma delícia. É por essas e outras que eu gosto de morar aqui pertinho da fábrica, na zona industrial.
É um barulho, sabe, um barulho tão forte, tão aconchegante, que você nem sente o tempo parar. Isso pra não falar da felicidade da garotada, que pode brincar à vontade com os vergalhões da obra e correr pelo asfalto, que, de tão quentinho, chega a fazer bolha no pé.
E o colorido em redor? São uns tons de cinza e areia, que se misturam com umas cores gastas, desbotadas, de uma beleza que faz qualquer um sentir por perto a existência de uma força maior. Afinal, só mesmo Niemeyer poderia criar uma coisa assim, que nenhum deus sequer chegaria a imaginar.
Viver por aqui é um perigo a qualquer hora, mesmo de dia. A gente pode deixar a casa toda trancada, que não entra quase ninguém. Só não vêm os amigos, que aliás faltam por essas bandas. Mas o melhor de tudo, devo confessar, é poder tomar essa coca fresquinha, colhida no isopor, do lado da fábica.
A última vez a gente nunca lembra [repost]
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 12 de maio de 2007
O reencontro tinha sido agradável, apesar das mágoas. Depois veio a confusão do divóricio, as brigas, os primeiros três anos morando juntos, as noites aproveitadas em casa, em meio à mudança e às obras. Tudo melhorava, sem dúvida, mas ela não quis aceitar seu convite para a viagem de lua-de-mel. Sabia que depois viria o casamento, o noivado, aquele namoro interminável, o primeiro encontro. Com tanta felicidade, seria muito doloroso se desconhecerem por completo.
“Um suco de garagem”
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 30 de julho de 2006
Ir às compras pode ser educativo. O Nunes, por exemplo: vendedor profissional. Em sua triste vida, misturava as linguagens das tantas lojas e setores em que trabalhou. Da concessionária de automóveis, levou algumas frases para a loja de sucos:
— Olha, o senhor precisa provar esse suco de goiaba. Tá novinho, novinho. Ele nunca foi oferecido pra outra pessoa. A goiaba veio de frete de Petrópolis, chegou agorinha mesmo. O senhor deu sorte. Eu não tava nem querendo oferecer esse suco, pensei em ficar com ele pra mim, mas o senhor é gente boa e eu percebi que tava querendo um suco bom, de qualidade, um suco sem problema, um suco de garagem…
Coitado, às vezes escorregava e misturava tudo. Uma vez, logo após deixar aquela loja de roupas num shopping, foi parar numa Pet Shop:
— Esse gatinho tá lindo mesmo. Tá saindo muito. A senhora não quer experimentar um? Isso, coloque assim no colo.. Perfeito! Olha, ficou muito bem na senhora. Parece até que foi feito sob encomenda. Uma graça. A senhora fica realmente muito bem de gato.
Foi demitido, claro. Mais tarde, tendo passado um tempo numa churrascaria popular, arrumou um “bico” na livraria “cabeça” de um bairro nobre:
— Deixa comigo, patrão! Vou buscar essa Proust no original agorinha mesmo. Tô vendo que o senhor gosta de coisa boa. Mas se o senhor preferir, tem o novo do Dan Brown, que tá saindo muito. Não quer não? O pessoal tá gostando bastante. E tem uma edição colorida com desenho, hein! Uma beleza, chefia.
Mas o pior aconteceu em casa, com a esposa e os filhos. De tanto tratá-los como clientes, um dia, após uma tentativa frustrada de convencê-los a ficar em casa em vez de ir para o jantar de Natal na sogra, acabou ouvindo da mulher a seguinte resposta:
— Pode ser, vou pensar… Enquanto isso, eu vou dar uma voltinha, para pesquisar um pouco, mas já, já estou de volta…
Ela nunca mais apareceu.
Quando eu gostava de ler
Posted by Bruno Rabin in Ficção on 19 de janeiro de 2006
Quando eu gostava de ler, faz uns dez ou onze anos, costumava perder muito tempo arrumando a posição perfeita para segurar o livro do jeito mais confortável. Tinha que ser algo entre o relaxamento completo e a rigidez absoluta do braço, num equilíbrio dificílimo. Uma espécie de não sentir. Ainda não me doíam tanto as costas, donde se infere que a leitura era possível. Hoje, nem pensar.
Foi nessa época que eu desenvolvi uma crença em minha capacidade intelectual-sensorial: comecei a perceber que poderia intuir o todo pela parte – sem teoria, puro empirismo.
Da primeira vez, após ter chegado à metade de um longo romance colombiano e sem conseguir ir adiante – menos pela qualidade do livro e mais pela crise lombar -, percebi que tinha entendido tudo. Aquele amor melancólico, aquela demora, aquela incompletude bastante: tudo. Não precisava gastar o antiinflamatório; eu tinha intuído o livro.
A descoberta desse poder foi uma libertação. Passei a exercitá-lo com animação. A cada semana, um meio livro. Cheguei a cursar uma faculdade inteira com livros lidos pela metade. Minto. Nem mesmo pela metade; de muitos livros me bastava a introdução ou a orelha. Os trabalhos acadêmicos, ao contrário do meu temor inicial, tinham notas tanto maiores quanto menos eu tivesse lido da bibliografia. Apenas intuindo o que os autores queriam dizer, eu poderia reinventar as idéias, caminhar em outra direção, fazer diferente. E agradar aos professores.
Com o tempo, essa minha capacidade chegou à sua mais perfeita forma: a intuição pelo título. Um trabalho inteiro sobre “Diferença e repetição” foi a chave dessa singeleza. A partir de então, o prazer da adivinhação pela não-leitura substituiu com sobra o tempo perdido no virar de cada página.
Passei a perceber que muitos livros lidos antes dessa descoberta ganhavam outro sentido quando intuídos apenas por seu título. Tive raiva de mim, do tempo perdido com tanta leitura, da incompreensão de tantos romances e contos, da impossibilidade de desler.
Aos poucos, a excitação deu lugar ao tédio. Com poucos minutos diante da vitrine de uma livraria, eu tinha material suficiente para horas sentado num café ou andando pela cidade. As conversas nas festas e reuniões de amigos deixaram de representar qualquer desafio. Alguém citava um livro, eu pensava uns instantes e sugeria uma teoria a respeito. Uma ou duas meninas ainda ficavam a me ouvir, encantadas; outros, de inveja, deixavam-me a falar quase sozinho.
Sozinho eu me bastava, mesmo entediado, mas resolvi tentar algo novo. Certo dia, após ler um título de um conto num caderno literário, resolvi me arriscar a escrever um texto. Não um texto sobre o conto, mas o próprio conto, à minha maneira. Gostei tanto do resultado, que resolvi publicá-lo. A vontade durou pouco: que editor manteria o nome homônimo do meu conto? Mudá-lo não faria sentido.
Foi quando me veio a idéia de usar um blog para a experiência. Criei-o com um nome apropriado ao meu projeto; afinal, era de farsa que se tratava. Publiquei o conto e esperei. Poucos dias depois, a surpresa: dois elogios na caixa de comentários. Eram outros blogueiros, que tinham descoberto minha página por acaso e resolveram deixar um recado. Que prazer naquilo: novamente eu tinha motivação para exercitar meu dom.
Do primeiro ao centésimo post, passaram-se apenas uns poucos meses. Links para outros blogs aumentaram o número de leitores e de comentários. Eu mesmo passei a visitar os novos amigos virtuais, deixando recados que disfarçavam um convite para minha própria página. As visitas aumentavam em uma velocidade espantosa. Cada conto continuava sendo a intuição do texto de alguém. E quanto mais leitores eu tinha, mais eu queria escrever.
Tudo andou bem até o mês passado. Motivado pelo lançamento de uma coletânea de posts de um “vizinho”, fui à livraria no centro da cidade para conhecer aquelas pessoas, escondendo-me como um passante. Ouvi muitas conversas, entre uma taça de vinho e um canapé, até ser surpreendido pela citação de um nome – meu nome virtual. Entre gargalhadas, o rapaz contava sobre sua estratégia de nunca ler meus textos até o final, escrever um comentário e receber minha resposta empolgada. Ria de como me enganava.
Desde então, suspendi os posts. Pensei em escrever sobre tudo: um conto, uma crônica, uma frase. Mas não havia título a copiar. Tive então a idéia desta confissão, imaginando que a originalidade biográfica talvez me salvasse. Nem isso.
Durante algum tempo, a escrita ainda era possível. Hoje, nem pensar.
