O grito dos excluídos (III)
Postado por: Bruno Rabin | Em: 04/05/2009 | 4 Comments »
Psicológo, sociológo, ministro, aposentado que dá entrevista na fila do banco ao RJTV: todo mundo que opina sobre essa história de acabar com o vestibular – os que concorda e os que discorda – todo mundo acha que, de qualquer maneira, é preciso acabar com a decoreba.
Tão falano besteira.
Primeiro, é romântico pensar que você sabe algumas coisas de coração (é etimologia, meu amigo, pergunte à tia do colégio).
Segundo, quase sempre a decoreba é criticada porque se supõe que o indivíduo possa desenvolver habilidades dedutivas e competências interpretativas para construir o conhecimento de forma autônoma, e se eu continuar essa frase mais um pouco, ganho um título em pedagogia, então é mió pará.
Quer dizer: o Pitágoras vai lá, corta uns retângulos ao meio, experimenta as proporções, tem um insight, publica um twitter com o famölzo teorema e a mulher que tirou zero em Matemática, que sequer sabe o que é um cateto, escreve um artigo no jornal protestando contra o absurdo das fórmulas impostas à cabeça dos pobres estudantes. Então, é isso: em vez de entender o caminho longo uma única vez e pegar o atalho depois disso, a sugestão é que, a cada vez, o sujeito faça o percurso de novo? Como é que essa gente assiste à televisão? Ou usa o lápis? Será que fica pensando sobre como o grafite entra naquela pedaço de madeira e risca o papel?
O pior dessa aposta na “capacidade de dedução” é que, além de ser bastantemente injusta com as pessoas que não conseguem sequer percorrer de novo o caminho aberto pelo inventor da fórmula, ainda nutre certo desprezo pelos gênios – o que não deixa de ser um desestímulo para os ditos cujos. Se estivesse vivo, o Newton mesmo ia colocar as leis num post it na geladeira e olhe lá!
Agora, o que eu queria ver mesmo é esse pessoal que ataca a decoreba sendo operado por um médico que não decorou anatomia, fisiologia ou farmacologia. Na hora do aperto, sangue pra todo lado, tá lá o cara pensando: “Humm, esse tubinho aqui está vindo de onde? Humm, deixa eu ver, olha ali. Ah, vem do coração. Se vem do coração, então deve ser artéria. E se é artéria, vem com pressão total, porque o coração acabou de bombear. Nesse caso, deixa ver, é melhor comprimir logo, senão vai tudo embora… Ih, não deu…”
É óbvio que, quando se fala de decorar alguma coisa, está se falando sobre ter repetido tantas vezes uma operação mental, que já se pode deixar de lado os intermediários. Do contrário, o atalho leva do nada a lugar algum. Mas o esforço da memorização, para além do prazer de poder dispensar o Google nas conversas com amigos, ainda tem o sentido poético de uma recordação dos tempos de escola. Multiplicação do nove, ciclo de Krebs, funções inorgânicas – é todo um lirismo que as gerações da educação construtivista não vão conhecer.
Ou vocês acham que todo mundo acha graça da piada abaixo?
Quem foi o maior pensador de todos os tempos?
Postado por: Bruno Rabin | Em: 27/04/2009 | 11 Comments »
Não é de hoje que esta pergunta intriga a Humanidade. Quem, afinal de contas, foi o maior dos pensadores que viveu neste mundo? Especialistas de todas as áreas já tentaram dar suas respostas, todas elas infelizes e muito mal formuladas, um sempre dizendo que o amiguinho era maior que os outros. E entre os próprios filósofos, devo dizer, o discurso da “questão de ponto de vista” esconde um temor em fazer uma medição meticulosa.
Mas, inspirado num desejo que há tempos me acompanha, resolvi desvendar esse mistério e dizer, de uma vez por todas, quem foi o maior. Para isso, precisei lançar mão das mais ardilosas ferramentas, comparando um filósofo a outro, procurando detalhes que ninguém percebeu, descobrindo o que cada pensador pensou poder esconder.
Se você está preparado, clique abaixo e me acompanhe o meu raciocínio.
O pior surdo
Postado por: Bruno Rabin | Em: 20/04/2009 | 3 Comments »
Ler uma história pós-moderna num livro sem ilustrações é como ouvir bandas que cantam em idiomas inumanos: Sigur Rós. Depois de treinar bastante a imaginação com descrições e indicações que os mui gentis escritores lhe oferecem em troco da leitura afetuosa, você se vê diante do nada, obrigado a fazer o trabalho que o autor não fez – por preguiça, inaptidão ou de sacanagem mesmo. Você sabe que estão dizendo alguma coisa, intui algumas possibilidades, mas está longe de saber se o sujeito usa barba, se está andando a pé ou de carro, se é um ser humano, afinal. Em favor da música, diga-se que o problema é seu; quem mandou faltar às aulas de sueco. Na literatura pós-moderna, pelo menos em tese, você compartilha o idioma. O analfabetismo, nesse caso, seria apenas uma questão de perspectiva – de quem diz ou de quem ouve. Entrar nesse jogo, nos entretantos e poréns, significa aceitar a premissa do perspectivismo. Pode ser. Cá entre nós, prefiro a dica de um amigo diante de alguém que o irrita: “Faz uma coisa. Fica aqui, que eu vou à merda ali rapidinho.”
O grito dos excluídos (II)
Postado por: Bruno Rabin | Em: 09/04/2009 | 1 Comment »
Comida de avião. Qualquer comida: galinha ou pasta, como dizem; sanduíche de queijo com pão fofinho; até barrinha de cereal. A comida de avião merece nosso respeito também. Primeiro porque é uma espécie de presente, né? Ok, você pagou a passagem, foi uma nota, dividou em doze vezes etc. etc., mas nem vai usar a carteira durante o voo, então na verdade está ganhando um brinde. E é de comer. Segundo, porque há o fator surpresa. Você nunca sabe direito o que vai encontrar. Na ida, foi um caneloni de frango com molho de tomate, pudim de sobremesa. E na volta? Bifinho com purê? Ou será lanchinho? E essa barra de cereal, será com avelãs? Façamos as contas do horário… Terceiro, porque vem tudo dividido em pequenas porções, caixinhas, plásticos. Coisa da infância, que ajuda a surpresa a vir aos poucos, parte por parte, até o mini-brownie. E, quarto, porque dá um gostinho de competição. Cada um encontrando a melhor maneira de arrumar a bandeja, manusear os talheres de plástico, organizar os restos. Que sensação de superioridade olhar para o lado e ver aquela bagunça! Essa gente incivilizada. Se fosse do ramo, inventaria até um restaurante em forma de avião, para servir apenas essas comidinhas. Você reservaria, pagaria adiantado e teria toda surpresa lá na hora. Ainda teria a vantagem de poder ir sem companhia, para ler à vontade. E sem passar pela Linha Vermelha.
O grito dos excluídos
Postado por: Bruno Rabin | Em: 07/04/2009 | 6 Comments »
O véio tarado é um tipo excluído. Talvez o pior de todos os excluídos, porque não existe ideologia, religião, time de futebol ou preferência gastronômica que poupe o coitado. À direita e à esquerda, todo mundo faz cara de nojo para ele. Basta o véio tarado dar aquela olhada gulosa na direção da menininha, que qualquer um em volta, e não apenas a menininha empinada, faz questão de fazê-lo ouvir um “tsc-tsc” bem alto, às vezes até com xingamento: “Véi tarado”.
Mas o véio tarado não faz mal a ninguém. Às vezes, é verdade, dá uma roçadinha, que é para melhorar um bocadinho as lembranças daqueles tempos. E nessa encostadinha – no ônibus, no balcão da padaria ou na fila do banco -, nosso heroi acaba incomodando um pouco, não pelo contato em si (igualzinho ao de um tarado em qualquer idade), mas pela velhice do véio. Ele nem faz cosquinha, mas a suposta vítima é capaz até de dar uma bolsada nele, só por causa da baba enrugada.
Pois este blog quer defender o direito do véio tarado de ser quem ele é; o direito de olhar sem vergonha para babás, enfermeiras e estudantes de uniforme; o direito de falar safadezas para mulheres de saia e sem saia também; o direito, enfim, de babar.
Excluído dos excluídos, o véio tarado merece nosso respeito. Admire-se não apenas sua safadeza-arte, sua baba-moleque, mas sobretudo sua coragem para exercer, sem vergonha, aquilo que todos gostaríamos de poder fazer, tivéssemos liberdade para isso. No futuro aberto por esses desbravadores, todos nós – pobres ou ricos, bebedores de cachaça ou de campari, admiradores de bocha ou de vôlei de praia -, todos nós poderemos ser também velhos tarados em busca de colegiais inocentes (se as houver, é sempre bom lembrar).
Eu devo estar perdendo alguma coisa
Postado por: Bruno Rabin | Em: 03/04/2009 | 4 Comments »
O vestibular vai acabar, anuncia o ministro da educação. Por quê?, pergunto eu. Porque é um sistema injusto e ultrapassado, que privilegia a decoreba, responde o funcionário do novo ídolo do Obama.
Ai, que preguiça… Mas vamos lá:
Injusto, se bem entendi, porque fica muita gente de fora. Não vou nem discutir o que é injustiça, porque não vale a tecla. Fiquemos no mesmo níver: do total de pessoas que prestam vestibular para universidades públicas, todos os anos, a maior parte “roda”. Uns, porque não alcançam notas mínimas (problema deles, quando não aproveitam os colégios, ou deles e dos governo, que não lhes oferecem alguma coisa miózinha); outros, porque há vagas de menos. Nesse caso, até o ratinho simpático que deve morar num buraco do Palácio do Planalto entende que a única maneira criar, er, “justiça” é aumentar o número de vagas nas universidades – ou diminuir o número de formandos no ensino médio. Do contrário, qualquer que seja a forma de seleção – jogo de dados, pôquer ou comparação de muques -, muita gente vai continuar ficando de fora.
Ou seje: o governo vai acabar com o vestibular, mas obviamente continuará existindo um processo de seleção para o ensino superior com provas que medirão (mal ou bem, tanto faz) algumas habilidades intelectuais e certos conhecimentos. Nem quatro anos de faculdade de comunicação me deram essa habilidade semântica do ministro. “Vestibular” é obra do coisa-ruim, sem dúvida. Talvez haja até um nome novo. Faço minha aposta: “Vagas para Egressos Selecionados Tecnicamente como Individuos Bons para Universidades Locais de Alto Rigor”. Quem quiser que faça a sigla.
O outro problema é a decoreba, diz o ministro. De que vestibular ele está falando? No caso das federais, sob sua alçada, acho difícil encontrar provas tão horríveis assim hoje em dia. Há casos tristes, claro (UFBA, UFC, por exemplo), mas a coisa funciona muito bem na UFRGS, na UFSC, na UFMG. NA UFRJ, em particular, as provas são todas discursivas e muito mais inteligentes do que suporia o olhar sobre o que lá se faz depois de se conquistar a vaga. Mas a questão é de linguagem, tinha me esquecido. “Vestibular”, “injustiça”, “decoreba”, “coragem de mudar” – é só fazer a mistura conveniente. Pra que falar de “detalhes”?
Há questões menores nessa história: fala-se sobre a autonomia universitária, por exemplo. O governo federal manda, obedece quem quiser. Em tese, claro. Porque reitores “alinhados” e o pessoal que fica esperando aquela verbinha extra certamente aprovarão a novidade.
Fala-se também em substituir a primeira fase dos vestibulares, partindo-se da premissa – equivocada – de que todas as provas sejam divididas em fases (não são!) e de que as primeiras fases que existem não cumpram seu papel de cortar o grupo mais fraco, que, de uma forma ou de outra, não entraria mesmo. Nesse contexto, acabar com as eliminações da primeira fase seria adiar um pouquinho a decepção da rapaziada e entortar o processo de correção das provas discursivas (já muito caro e um pouco mal feito com menos provas).
Por último, surge a ideia de aplicar o ENEM como essa primeira fase nacional, deixando de lado o incômodo de que se trata de uma prova facílima, em que todo o grupo aprovado em carreiras mais concorridas obtém, no mínimo, 90% de rendimento (ou seja, não faz distinção de mérito). Isso, para não falar na prova de redação, que tem um dos modelos de correção mais cretinos imaginável. Entre os cinco parâmetros de avaliação do texto, encontra a exigência de que o aluno respeite diversidades, direitos humanos etc. – dá até vergonha de falar.
E tudo isso para quê? Para o pessoal arrumar um dipromazin universitár e nóis subir nos ideagár.
Faz o seguinte, Haddad: imprime logo os diplomas pra todo mundo. Tenho certeza de que você arruma um jeito de explicar a ideia. “Considerando a impossibilidade, para grande parcela da juventude brasileira, de concluir os cursos universitários no atual modelo, elitista e autoritário, em que os estudantes ainda precisam provar para figuras de autoridade que aprenderam alguma coisa, decidimos alterar essa herança maldita, com um processo democrático, que atenda às reais necessidades do povo brasileiro. Assim, a partir de agora…”
À maneira de César, um post-twitter sobre posts pendentes que jamais escreverei, meio por preguiça, meio por falta de empolgação (coisas bem diferentes), com um título maior que o dito-cujo
Postado por: Bruno Rabin | Em: 28/03/2009 | 1 Comment »
1. Ia fazer análise, mas o gasto mensal com as consultas ficaria mais caro que os sabonetes para a compulsão, sem falar na limpeza, né?
2. A próxima vez que ouvires alguém falando “pré-conceito”, compra-te um revólver.
3. Se quiserdes ser eterno, escrevais em segunda pessoa.
4. Blog é quem nem biscoito: vai um, vêm dezoito.
5. Quando alguém sugerir que você leia o novo romance daquele compositor bebum, responda logo: “Ah, eu já li, mas foi há muito tempo, nem lembro.”
6. Se eu preferisse resenhas a uns trocados, ia escolher um destes protagonistas para o meu romance: dançarino de dança de salão, comentarista de blog, estudante de design ou baixista de banda alternativa. A história ia ser chata, mas que charme!
7. Aliás, o rock, a dança de salão e o design fizeram mais pela ilusão da igualdade democrática do que dois séculos de política.
8. O vegetarianismo teria muito a ganhar se não precisasse tanto se afirmar; ou você acha mesmo que existe tal coisa como “estrogonofe de tofu”?
9. O politicamente incorreto é o novo politicamente correto.
10. Decoração é a maneira menos econômica de ter personalidade.
Quem mandou baixar legenda
Postado por: Bruno Rabin | Em: 27/03/2009 | No Comments »
- Não me padronize, Paul!
(Tradução de Neozin para “Don’t patronize me, Paul!”, fala de Laura em In treatment)



